Carreira

O Culto à Pressa e o Esquecimento da Formação

Mirella Ferreira de Oliveira11 de agosto, 202610 min de leitura
O Culto à Pressa e o Esquecimento da Formação

Vivemos em uma época que cultua a velocidade e os atalhos para o sucesso profissional, muitas vezes ignorando o verdadeiro tempo de formação. Este artigo aborda como a busca desenfreada por ascensão precoce gera frustração e propõe o resgate de conceitos clássicos, como o hábito e a prudência, para a construção de uma carreira sólida e sustentável.

O Culto à Pressa e o Esquecimento da Formação

Introdução

Você pega o diploma e quer um emprego. Até aí, tudo bem. Consegue um estágio e, na primeira semana, já está pensando em ser efetivado. Passam-se seis meses e a cobrança interna aumenta: “Tá, mas e a promoção?”. A promoção chega e, pouco depois, surge a pergunta seguinte: “E quando eu viro chefe? E quando chego à gerência?”

Quando percebe, passaram-se dez ou quinze anos, e você continua correndo atrás de uma meta que parece estar sempre dois passos à frente. Loucura? Talvez. Mas existe uma questão mais incômoda: quando foi que começamos a acreditar que crescer rápido é a mesma coisa que crescer de verdade?

Querer crescer profissionalmente, buscar melhores condições de vida e desejar reconhecimento não são problemas. O problema está em transformar a velocidade dessa ascensão em medida de sucesso. Querer subir na vida é uma coisa; não suportar o tempo que as coisas levam é outra completamente diferente. E talvez essa incapacidade de esperar esteja contribuindo para uma geração cada vez mais frustrada com a própria trajetória profissional.

A pressa pelo resultado e a ilusão do atalho

A cultura contemporânea criou uma relação quase obsessiva com a velocidade. Queremos o curso de três horas, o método definitivo, a ferramenta de inteligência artificial que resolve em dez segundos aquilo que levaria uma tarde e a vaga que promete “crescimento acelerado”. Tudo precisa acontecer rapidamente: aprender, ganhar dinheiro, conquistar independência, ser promovido e alcançar posições de liderança. O sucesso, de certa forma, passou a ser tratado como um serviço de entrega rápida.

O problema é que a realidade não funciona por aplicativo. É possível acelerar determinadas etapas por meio de estudo, tecnologia, bons mentores e estratégias mais eficientes, mas existe um limite que nenhum atalho consegue eliminar: o tempo necessário para a formação.

Experiência não pode ser simplesmente baixada. Maturidade não vem em certificado. Julgamento não é instalado por atualização de software. Caráter não surge porque alguém concluiu um curso sobre liderança. É possível adquirir informação em poucas horas, mas transformar essa informação em competência exige prática, repetição, erro e correção.

É justamente aí que aparece uma contradição da nossa época: queremos resultados cada vez mais rápidos em um processo que, por natureza, é lento. Queremos o troféu, mas não queremos o período em que ainda somos ruins; queremos a posição de liderança, mas não queremos passar pelo período em que precisamos aprender a obedecer; queremos reconhecimento, mas não queremos passar pelo anonimato necessário para construir algo consistente.

Em outras palavras, queremos crescer, mas não queremos ser formados.

A armadilha da vitrine digital

Essa ansiedade também é alimentada pela forma como as redes sociais transformaram a carreira em uma vitrine. Basta abrir o LinkedIn para encontrar uma sucessão de anúncios de promoções, novos cargos, certificados, conquistas e “novos ciclos”. Em poucos minutos, alguém no início da carreira pode ter a impressão de que todos à sua volta estão avançando mais rápido.

A reação quase automática é pensar: “Estou ficando para trás.”

Mas para trás de quem?

O problema é que comparamos o nosso bastidor com o espetáculo editado dos outros. Ninguém publica as horas gastas corrigindo um relatório, os erros cometidos no primeiro emprego, os meses de estudo sem resultados aparentes ou a insegurança de quem ainda está tentando descobrir se realmente é bom naquilo que faz. As redes sociais mostram o resultado, mas raramente mostram o processo.

Isso cria uma espécie de distorção na percepção da própria carreira. Não basta trabalhar, aprender e melhorar; é preciso demonstrar constantemente que se está avançando. O desenvolvimento profissional passa a ser tratado quase como um videogame: acumulam-se experiências, desbloqueiam-se cargos, aumenta-se o salário e parte-se imediatamente para o próximo nível.

O problema é que a vida profissional não possui uma barra de experiência. A maturidade não aumenta porque o cargo no LinkedIn mudou. E, principalmente, a velocidade da trajetória de outra pessoa não é uma medida confiável para avaliar a qualidade da nossa própria formação.

O peso da tradição: Aristóteles, São Tomás de Aquino e a prudência

Muito antes das redes sociais, da inteligência artificial e da atual obsessão por produtividade, a filosofia já discutia uma questão fundamental: como o ser humano se torna excelente naquilo que faz?

Aristóteles oferece uma resposta que continua sendo desconfortavelmente atual: por meio do hábito. A excelência não surge pronta, tampouco é resultado apenas de conhecimento teórico. Ela é construída pela prática constante. O indivíduo aprende a agir bem por meio da repetição de ações corretas, até que determinadas disposições se tornem parte de seu modo de agir.

Isso significa que não nos tornamos disciplinados simplesmente porque entendemos a importância da disciplina. Não nos tornamos prudentes porque lemos sobre prudência. Não nos tornamos bons profissionais porque concluímos um curso. É necessário praticar, errar, corrigir, tentar novamente e permanecer tempo suficiente no processo para que o conhecimento se transforme em competência.

Essa concepção entra em choque direto com a cultura do imediatismo. Afinal, o hábito exige repetição, e a repetição exige tempo. A excelência não pode ser simplesmente acelerada porque ela depende de um processo de formação.

A tradição aristotélica encontra em São Tomás de Aquino um importante desenvolvimento dentro da filosofia cristã. Entre as virtudes que ele analisa, a prudência possui particular importância para a tomada de decisões. Prudência não significa medo de agir, recusa ao risco ou passividade. Significa saber deliberar adequadamente sobre aquilo que deve ser feito, considerando as circunstâncias e as consequências da ação.

Essa ideia é particularmente relevante para a vida profissional. Imagine que alguém receba uma proposta de emprego pagando o dobro do salário atual. A mentalidade imediatista provavelmente perguntará apenas: “Quanto vou ganhar?”. A prudência acrescentaria outras perguntas: “O que vou aprender nessa função? Quem será responsável pelo meu desenvolvimento? Que tipo de profissional vou me tornar nesse ambiente? Essa oportunidade me aproxima ou me afasta daquilo que desejo construir a longo prazo?”.

A diferença entre essas duas perspectivas é fundamental. Uma está concentrada no benefício imediato; a outra considera aquilo que a decisão contribui para a formação da pessoa. O problema não está em escolher o salário maior. O problema está em acreditar que o salário maior, por si só, torna a escolha melhor.

A crise na educação e o esquecimento da formação

É nesse ponto que a discussão sobre carreira encontra uma questão ainda mais profunda: a educação. Afinal, se estamos formando pessoas incapazes de lidar com o tempo, com a frustração e com o esforço prolongado, precisamos perguntar se essa dificuldade não possui alguma relação com a maneira como entendemos a própria educação.

A escola e a universidade não deveriam ter como finalidade apenas transmitir informações ou preparar o indivíduo para executar determinadas tarefas no mercado de trabalho. Existe uma dimensão formativa que não pode ser ignorada. Educar também significa desenvolver hábitos intelectuais, disciplina, capacidade de raciocínio, responsabilidade e disposição para buscar aquilo que é verdadeiro e bom, mesmo quando isso exige esforço.

A educação contemporânea trouxe contribuições importantes ao enfatizar aspectos como participação, diálogo, autonomia e relação entre conhecimento e realidade. O problema surge quando essas ideias são interpretadas de maneira que a experiência imediata do aluno se torne mais importante do que a própria exigência da formação.

Respeitar o aluno não significa poupá-lo de tudo aquilo que é difícil. Dar autonomia não significa eliminar a autoridade. Estimular o pensamento crítico não significa ensinar que toda opinião possui o mesmo valor. E tornar o aprendizado significativo não significa eliminar a disciplina necessária para aprender.

É justamente nesse ponto que a tradição aristotélico-tomista oferece uma provocação importante. Se a educação tem como objetivo formar o ser humano, então não basta perguntar quais competências o aluno adquiriu. Também é necessário perguntar que tipo de pessoa ele está se tornando.

Uma pessoa pode saber pesquisar e não saber estudar. Pode ter acesso a uma quantidade enorme de informação e não possuir critérios para avaliá-la. Pode saber expressar opiniões e, ao mesmo tempo, ter dificuldade para argumentar. Pode desejar autonomia e não estar preparada para assumir responsabilidade. Pode desejar liderança e não ter aprendido a obedecer. Pode querer resultados e não suportar o processo necessário para alcançá-los.

Talvez esse seja um dos paradoxos da educação contemporânea: nunca tivemos tanto acesso à informação e, ainda assim, isso não significa necessariamente que estejamos mais preparados para pensar, escolher e agir bem.

O papel e a responsabilidade das empresas

Seria conveniente colocar toda essa responsabilidade sobre os jovens, mas isso também seria injusto. As empresas participam ativamente da construção dessa cultura de imediatismo.

É comum encontrar organizações que prometem “crescimento acelerado”, “protagonismo desde o primeiro dia” e “carreiras exponenciais”. Ao mesmo tempo, contratam profissionais em início de trajetória e esperam deles comportamentos próprios de pessoas que já acumularam anos de experiência.

Cobram autonomia sem desenvolver julgamento. Exigem maturidade sem oferecer orientação. Entregam responsabilidade sem necessariamente oferecer formação.

Depois, quando encontram profissionais inseguros, impacientes ou pouco preparados, surge a pergunta: “Por que os jovens de hoje não têm resiliência?”.

Talvez uma pergunta melhor fosse: que tipo de ambiente estamos oferecendo para que essa resiliência seja desenvolvida?

Uma organização não precisa ser uma escola, mas uma empresa que pretende desenvolver pessoas precisa compreender que ninguém se torna excelente simplesmente porque recebeu uma meta. A experiência profissional deveria produzir resultados para a organização, mas também deveria produzir crescimento real no profissional.

Ascensão profissional não é formação profissional

É fundamental distinguir duas coisas que frequentemente confundimos: ascensão profissional e formação profissional.

A primeira pode acontecer rapidamente. A segunda, não.

Uma pessoa pode ser promovida em seis meses, mas isso não significa que tenha adquirido, em seis meses, a maturidade necessária para ocupar qualquer posição de liderança. Pode ganhar mais sem ter se tornado proporcionalmente mais competente. Pode receber autoridade sem possuir prudência. Pode assumir uma equipe sem saber liderá-la.

O problema não está em alcançar posições elevadas rapidamente. Em alguns casos, isso pode ser resultado legítimo de talento, dedicação ou circunstâncias favoráveis. O problema está em confundir a posição alcançada com a formação necessária para sustentá-la.

A formação exige tempo, repetição, fracasso e humildade. Exige aceitar que, durante algum período, seremos iniciantes. E talvez essa seja uma das coisas que mais incomodam em nossa cultura: ninguém quer mais ser iniciante.

Queremos saber antes de aprender. Queremos liderar antes de obedecer. Queremos ensinar antes de dominar. Queremos reconhecimento antes de construir aquilo que justifique esse reconhecimento.

Conclusão: quem você está se tornando?

Se você está no início da carreira e sente que todos estão de Ferrari enquanto você está de patinete, talvez seja hora de respirar e olhar novamente para a própria trajetória. Você não precisa atingir o ápice aos vinte e poucos anos, nem transformar cada etapa da sua vida em uma competição contra alguém.

Existe dignidade em começar pelas bases, em executar tarefas simples com excelência, em aceitar que ainda não sabe alguma coisa e em passar anos desenvolvendo uma competência que talvez ninguém reconheça imediatamente.

A nossa geração precisa reaprender a respeitar o tempo. Não o tempo perdido, mas o tempo de formação.

Aristóteles nos lembra que a excelência está relacionada ao hábito e à prática. São Tomás de Aquino, aprofundando essa tradição à luz da filosofia cristã, coloca a prudência entre as virtudes fundamentais para orientar o agir humano. Ambos oferecem, cada um dentro de sua tradição, uma provocação especialmente relevante para uma sociedade que parece cada vez mais obcecada pela velocidade: não basta chegar; é preciso tornar-se capaz de chegar.

Talvez devêssemos parar de perguntar apenas “quando vou ser promovido?” e começar a perguntar “quem estou me tornando enquanto construo minha carreira?”.

Porque o crachá é temporário, o salário está sujeito à inflação, a empresa pode te substituir e o cargo pode desaparecer. O que permanece é aquilo que você construiu em si mesmo: sua competência, sua disciplina, sua prudência, sua capacidade de julgar e seu caráter.

O sucesso não consiste necessariamente em chegar ao topo o mais rápido possível. Talvez consista em chegar lá suficientemente formado para permanecer de pé.

Afinal, você está construindo uma carreira ou apenas correndo atrás do próximo cargo?

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Mirella Ferreira de OliveiraBacharel em Gestão Empresarial. Escreve aqui semanalmente sobre Marketing, Finanças e as Decisões que ninguém coloca no organograma.